Jornalismo convencional defende educação, mas se isenta de questionar reforma da previdência

Publicado originalmente em objETHOS.

(Foto: Rede Brasil Atual)

Balbúrdia. Invasores. Criminosos. No Brasil, estas palavras têm em comum o fato de terem sido proferidas intensamente por representantes do governo federal desde o início do mandato do presidente Jair Bolsonaro. Como que pensadas por meio de uma estratégia excludente, da qual este compartilha, elas têm servido para qualificar no campo das disputas políticas os grupos sociais que são considerados por este governo como os inimigos do país: negros, pobres, sem-terra, gays e, como ficou notório mais recentemente, a comunidade universitária.

Não é exagerado dizer isso quando se leva em consideração que medidas de penalização direta para alguns destes grupos foram tomadas nas duas últimas semanas sem algum argumento legítimo, como no caso das instituições públicas de ensino superior, enquanto outras medidas que buscam isentar de punição grupos poderosos podem ser regulamentadas em breve. São dois pesos e duas medidas numa avaliação totalmente ideológica, ao contrário do que o governo que tem como meta combater privilégios disse que faria.

A construção desse projeto político antidemocrático, que vê os grupos que representam o pluralismo do país como inimigos a serem combatidos pelo uso da coerção — e não como um adversário legítimo “(…) com quem temos em comum uma adesão partilhada aos princípios ético-políticos da democracia” (MOUFFE, p. 16) — não é, contudo, exclusividade brasileira.

Em artigo publicado no final de 2018, Jeffrey Alexander faz uma avaliação do ideólogo do governo Donald Trump, Steven Bannon. Nela é desvelada que a estratégia ideológica por trás do governo norte-americano prima por “poderosas narrativas a partir de simplificações binárias do conflito político, purificando os grupos que encarnariam a verdadeira América — nacionalistas, brancos e cristãos — e legitimando a exclusão dos demais” (p. 1023). Essas narrativas se caracterizam por duas dimensões, segundo Alexander (2018): a) possuírem códigos binários e excludentes, que classificam quem é o amigo e o inimigo no país e b) serem temporais, ou seja, ter começo, meio e fim num cenário construído de forma a parecer apocalíptico. O projeto político de privatização das universidades públicas brasileiras defendido por este governo — assim como o de armamento civil e da impunidade policial — segue essa mesma receita.

Primeiro, o presidente Jair Bolsonaro cria uma imagem negativa dos cursos de ciências humanas e sociais, afirmando que eles contribuem em menor medida para a sociedade do que outros, e ameaça-os com corte orçamentário. Em seguida, estende esta perspectiva negativa a todas as instituições públicas de ensino superior, declarando que no Brasil não se faz ciência e, quando se faz, é por mérito das faculdades particulares.

Simultaneamente, o Ministério da Educação (MEC) penaliza três universidades com corte de verbas, UnB, UFF e UFBA, tendo como argumento a acusação de que elas fazem balbúrdia e têm baixo desempenho acadêmico (vale lembrar que, muito antes das recentes declarações do governo, um dos grandes ideólogos da gestão Bolsonaro, Olavo de Carvalho, já associava a universidade à mesma ideia de balbúrdia e libertinagem). Em virtude do ataque do MEC ter sido criticado pelo corpo acadêmico nacional, o Governo resolve então estender a medida de corte de verbas em 30% para todas universidades e institutos federais, como um “cale-se” coercitivo generalizado. Mas, ao invés de silenciar-se, como ainda estamos num regime democrático, está sendo possível ao corpo universitário responder aos ataques governamentais e desmenti-lo – muito disso por meio das próprias redes sociais e sites institucionais em âmbito nacional.

Nessa disputa política tão forte pela hegemonia (GRAMSCI, 2004), ou seja, por validação de uma ideologia política, econômica e cultural, que guia a perspectiva de nação, educação e sociedade que teremos, o jornalismo cumpre um papel muito importante. Por mais que seja alvo de crítica de todos os lados — inclusive do presidente da República, que encara alguns veículos também como inimigos —, e que seja apenas mais um ator neste contexto social de redes online a produzir socialmente discursos sobre a realidade presente, ele se configura ainda como um lugar que cria o que Donsbach (2014) chama de realidade compartilhada. A realidade que é comum e importa a todos. Por onde também as contradições ideológicas da realidade podem se tornar visíveis ou não para a construção de uma sociedade mais ou menos democrática (GENRO FILHO, 1987).

Nesse sentido, mostrar as mentiras do governo, esclarecendo para a sociedade que a educação superior pública brasileira é responsável por mais de 90% da ciência no país, é tarefa do jornalismo. O Tempo e a Folha de S.Paulo foram dois dos poucos veículos que fizeram isso. A maior parte do esclarecimento dessa informação veio dos sites institucionais das próprias universidades. Mas, a partir dessas pressões, o jornalismo convencional começou a ouvir as vozes diretamente afetadas pelas medidas governamentais.

Veículos jornalísticos diversos começaram a mostrar quais as consequências do corte de verbas para as universidades, como verificado nas notícias do/a G1, Folha de S.Paulo, El País. Outras, a exemplo das verificadas no/a Uol, Estadão e IstoÉ, desvelaram mais uma declaração falsa do governo: a de que o dinheiro derivado do corte de verbas do ensino superior privilegiaria a educação básica, quando, na verdade, esta também teve o orçamento cortado, inclusive até em maior medida do que a educação superior. Mais recentemente, foi maciçamente veiculado nos jornais como o corte da Capes tem impactado os pesquisadores da pós-graduação.

Ainda nessa disputa recorrente de quem tem autoridade para falar a verdade (se o jornalismo ou o governo Bolsonaro), na sexta-feira (10/05) o ministro da Educação afirmou que o corte no ensino público superior seria de 3,5%, e não de 30%, como a imprensa teria divulgado com base em nota oficial enviada pelo próprio MEC. Reafirmando esse argumento, em publicação no Twitter, no mesmo dia, Bolsonaro declarou: “Ministro da Educação, Professor @AbrahamWeint, explica a diferença entre ‘corte’ e ‘contingenciamento’ e desmente as #fakenews sobre o orçamento das faculdades”. Alguns jornais, a exemplo de O Globo, no último (11/05), explicaram a confusão do governo na divulgação dos dados, na tentativa de evidenciar que não publicaram conteúdos falsos e que os erros de informações provinham do desalinhamento de respostas do próprio MEC.

Outra questão, no entanto, é intrigante. A despeito do jornalismo ter se mostrado um espaço onde os discursos contraditórios aos oficiais se tornam visíveis, neste caso, há algo valioso para o governo em que ele não mexe: a reforma da Previdência. Esta se encontra intimamente ligada aos ataques contra a educação, uma vez que contextualiza o cenário financeiro apocalíptico criado pelas narrativas governamentais em que as instituições públicas se encontram.

Em “Ministro diz que pode desbloquear verba das federais se reforma da Previdência for aprovada”, do G1, a manchete é clara em evidenciar a educação como moeda de troca para a reforma da previdência ser aprovada. Nela, a declaração do ministro da educação, Abraham Weintraub, não é questionada sob nenhum aspecto — a reforma é tida como algo dado; não passível a problematizações, e como pagamento do resgate da educação sequestrada pelo governo. Em “Ministro diz que corte é “contingenciamento”, senador responde “sinônimo” revela-se ainda a disputa no campo dos sentidos para significar o acontecimento de uma ou outra maneira: trata-se de corte de verbas, como o corpo universitário defende e o próprio ministro da Educação já denominou, ou “contingenciamento” até a reforma ser aprovada, como o MEC tem declarado recentemente. Apesar dos ataques governamentais a alguns veículos jornalísticos, várias notícias em circulação já utilizam o termo “contingenciamento”, tal como utilizado pelo governo, para enfatizar a necessidade da reforma previdenciária.

Disto apreende-se que, embora a disputa política em torno da educação superior seja problematizada em certa medida pelo jornalismo e ponha o governo numa situação desconfortável, a reforma da Previdência vai simultaneamente ganhando mais apoiadores na sociedade, sem uma reflexão profunda sobre o assunto. Em virtude disto, a motivação do apoio social a ela parece se explicar mais pela chave do temor — de que se ela não passar, direitos sociais da população começarão a ser negados — do que pelo esclarecimento. Parte de como isso é danoso pode ser mensurada pela forma como a pesquisa Ibope divulgada na terça-feira (8/5) foi tratada pelo telejornal de maior audiência do país, o Jornal Nacional.

Na notícia foram trazidos os dados da pesquisa realçando-se que 59% da população brasileira concorda totalmente (31%) ou em parte (28%) com a ideia de que é necessário reformar a Previdência, mas que apenas 36% conhecem seus principais pontos. Destes, 39% a aprovam, enquanto 51% são contrários a ela. E, na notícia que se segue a essa, ao invés do Jornal Nacional elencar e trazer fontes que discutam os pontos principais da reforma para que a sociedade brasileira possa conhecê-la, o que ocorre é justamente o contrário. Evidencia-se mais uma vez que ela é necessária tal como foi formulada por meio do reforço das declarações do ministro da Economia, Paulo Guedes, sem se ouvir com o mesmo peso as vozes contrárias. Recentemente, circulou em alguns veículos a notícia de que o governo gastaria R$ 40 milhões para veiculação de nova campanha publicitária da reforma da Previdência em várias mídias.

Diante disso, quando se analisa a cobertura sobre o corte de verbas na educação pública e como ela vem sendo relacionada à reforma previdenciária, evidencia-se como o jornalismo, apesar de desmontar a estratégia narrativa governamental de que o corpo acadêmico é inimigo do país, ainda conserva a dimensão apocalíptica dessa construção. Com isso, o jornalismo convencional mostra que pode seguir, concomitantemente, dois caminhos: por meio de pautas progressistas e compromisso com a veracidade dos fatos, mostra seu potencial transformador, enquanto ainda insiste em defender os interesses políticos de governantes e financeiros da elite econômica do país.

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Juliana Freire Bezerra é doutoranda em Jornalismo no PPGJOR e pesquisadora do objETHOS.

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REFERÊNCIAS:

ALEXANDER, Jeffrey. Vociferando contra o iluminismo: a ideologia de Steve Bannon. Revista Sociologia & Antropologia, vol.8 n.3 Rio de Janeiro Sept./Dec. 2018. Disponível em< http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2238-38752018000301009>

DONSBACH, Wolfgang. Journalism as the new knowledge profession and consequences for journalism education. Journalism, v. 15, n. 6, 2014.

GENRO FILHO, A. O segredo da pirâmide: para uma teoria marxista do jornalismo. Porto Alegre, Tchê, 1987.

GRAMSCI, Antônio. Cadernos do Cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, v. 1, 2004.

MOUFFE, Chantal. Democracia, cidadania e a questão do pluralismo. Tradução de Kelly Prudêncio. In: Revista Política & Sociedade: Revista de Sociologia Política, Florianópolis v.1, n. 3, p. 11-26, out. 2003.

 

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