E o Oscar vai para… Pantera Negra!

Black Panther - Disney/Marvel Studios - 2018

Estamos vivendo novos tempos…

Eu torcia para “Vingadores: Guerra Infinita”, mas fui surpreendido por “Pantera Negra” ser indicado a 7 prêmios pela Academia do Oscar (Figurino, Mixagem de Som, Edição de Som, Trilha Sonora Original, Design de Produção, Canção Original e), incluindo o prêmio de Melhor Filme. É um marco.

Como disse no texto sobre “Vingadores: Guerra Infinita” – você pode ler aqui – A culminação do MCUMarvel Cinematic Universe– é em Guerra Infinita, mas a revolução, o movimento, o questionamento, um olhar mais apurado à nossa história e ao nosso redor, seja ele americano ou não, é “Pantera Negra” dirigido por Ryan Coogler (Fruitvale Station, 2013) e produzido pelo chefe-mor Kevin Feige no ponto máximo na representatividade de um povo que somos todos nós, negros ou não, de maneira grandiosa, bela e poderosa.

Isso também é o resultado da construção de um legado de longa data, de muitos profissionais negros de todas as áreas do cinema e da televisão, sendo o grande diretor Spike Lee (indicado a Melhor Diretor para o Oscar 2019 pelo filme “Infiltrado na Klan”), o maior representante desse “alicerce” para obras de grandes temas e traumas americanos. Agora, representado no gênero de super-heróis.

Dora Milajes
Marvel Studios’ BLACK PANTHER..L to R: Ayo (Florence Kasumba) and Okoye (Danai Gurira)..Ph: Film Frame..©Marvel Studios 2018

Como já disse no texto anterior sobre Guerra Infinita, quem ainda não viu “Pantera Negra”, deve impreterivelmente ver este filme e se atentar em toda estética empregada, a harmonia entre o tribal e o high-tech (influenciado pelo afrofuturismo) que rivaliza muito bem, dentro do MCU, com as tecnologias Stark, e o tema central da história que é intrínseco a cada um de nós neste planeta, tanto ao velho e ao novo mundo.

Pantera Negra: Um blockbuster político

No filme, o tema principal é, um país isolado que precisa abrir as portas e olhar para o mundo à sua volta, um país que deixou um de seus filhos viver como um negro pobre nos Estados Unidos, em um dos lugares mais violentos de lá, OaklandCA, muito bem compreendido pelo diretor Ryan Coogler,
Eric Killmonger que é interpretado de maneira grandiosa pelo ator Michael B. Jordan (Creed, 2015) como o vilão do filme, simbolizando a história do negro no novo mundo (para deleite dos brasileiros, uma das principais inspirações para Michael B. Jordam, foi o aclamado filme Cidade de Deus, 2002 – dirigido por Fernando Meirelles e Kátia Lund).

Muitas vezes, fico imaginando como Wakanda, país de Pantera Negra, interpretado por Chadwick Boseman (Get On Up, 2014), interpretara os conflitos ao seu redor ou o que poderia ter feito durante o período colonial. Por ser um país fechado, será que se absteve aos conflitos ao seu redor? Fica a indagação.

O que mais me chama atenção é ver o sistema político retratado no filme – primeiro filme da Marvel com esta abordagem – fazendo um paralelo ao nosso mundo, vejo muita arcaicidade de um povo que provavelmente não viu, por exemplo, dentro daquele contexto, as influências do Império Romano ou de Alexandre O Grande, onde estratégias de expansão e de república estavam em voga naquele período. Ou talvez, o povo wakandiano tenha se atentado a tudo isso, porém decidiram seguir um outro caminho, acreditando que para o seu desenvolvimento era necessário se isolar, focar em seu povo e observar de longe todas essas transformações sociais e territoriais entre os continentes.

Contudo, é um belo retrato conjugado entre o velho e o novo, entre o arcaico e o pós-moderno tornando-o um país rico e, a priori, democrático ao seu povo.

Modernidade e tradicionalismo em Pantera Negra - Disney/Marvel Studios - 2018
Modernidade e tradicionalismo em Pantera Negra – Disney/Marvel Studios – 2018

Há um momento impactante no final do filme que não revelarei aqui, mas sua problemática chegou diretamente à minha memória ao lembrar do poema do escritor Castro Alves, poeta brasileiro com seu texto contundente e poético chamado “Navio Negreiro”. É um soco no estômago.

Leia alguns trechos do poema que representa parte da história do personagem Killmonger em Pantera Negra:

‘Stamos em pleno mar… Doudo no espaço  
Brinca o luar — dourada borboleta;  
E as vagas após ele correm… cansam  
Como turba de infantes inquieta.

[…]

Homens do mar! ó rudes marinheiros,  
Tostados pelo sol dos quatro mundos!  
Crianças que a procela acalentara  
No berço destes pélagos profundos!

[…]

O Inglês — marinheiro frio,  
Que ao nascer no mar se achou,  
(Porque a Inglaterra é um navio,  
Que Deus na Mancha ancorou),  
Rijo entoa pátrias glórias,  
Lembrando, orgulhoso, histórias  
De Nelson e de Aboukir…  
O Francês — predestinado —  
Canta os louros do passado  
E os loureiros do porvir!
Os marinheiros Helenos,  
Que a vaga jônia criou,  
Belos piratas morenos  
Do mar que Ulisses cortou,  
Homens que Fídias talhara,  
Vão cantando em noite clara  
Versos que Homero gemeu …  
Nautas de todas as plagas,  
Vós sabeis achar nas vagas  
As melodias do céu! …

[…]
Mas que vejo eu aí… Que quadro d’amarguras!  
É canto funeral! … Que tétricas figuras! …  
Que cena infame e vil… Meu Deus! Meu Deus! Que horror!

Era um sonho dantesco… o tombadilho   
Que das luzernas avermelha o brilho.  
Em sangue a se banhar.  
Tinir de ferros… estalar de açoite…   
Legiões de homens negros como a noite,  
Horrendos a dançar…

[…]

Presa nos elos de uma só cadeia,   
A multidão faminta cambaleia,  
E chora e dança ali!  
Um de raiva delira, outro enlouquece,   
Outro, que martírios embrutece,  
Cantando, geme e ri!

No entanto o capitão manda a manobra,  
E após fitando o céu que se desdobra,  
Tão puro sobre o mar,  
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:  
“Vibrai rijo o chicote, marinheiros!  
Fazei-os mais dançar!…”

[…]
Hoje… o porão negro, fundo,  
Infecto, apertado, imundo,  
Tendo a peste por jaguar…  
E o sono sempre cortado  
Pelo arranco de um finado,  
E o baque de um corpo ao mar…

Ontem plena liberdade,  
A vontade por poder…  
Hoje… cúm’lo de maldade,  
Nem são livres p’ra morrer. .  
Prende-os a mesma corrente  
— Férrea, lúgubre serpente —  
Nas roscas da escravidão.  
E assim zombando da morte,  
Dança a lúgubre coorte  
Ao som do açoute… Irrisão!…

[…]

Fatalidade atroz que a mente esmaga!  
Extingue nesta hora o brigue imundo  
O trilho que Colombo abriu nas vagas,  
Como um íris no pélago profundo!  
Mas é infâmia demais! … Da etérea plaga  
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!  
Andrada! arranca esse pendão dos ares!  
Colombo! fecha a porta dos teus mares!

Fonte: http://www.biblio.com.br/

Pantera Negra: O fenômeno

Conflitos políticos entremeiam em Pantera Negra - Disney/Marvel Studios - 2018
Conflitos políticos entremeiam em Pantera Negra – Disney/Marvel Studios – 2018

De tudo isso, o filme traz também um pouco de Malcolm X e Martin Luther King em Killmonger e Pantera Negra respectivamente, dois grandes líderes na busca de igualdade, cada um a seu modo. É um apanhado de uma luta que não para e não deve parar. Mesmo com um tema ainda tão atual, o filme é puro entretenimento fazendo as ligações tradicionais do MCU.

Minha lembrança especial a Danai Gurira como Okoye – Disney/Marvel Studios – 2018 #OkoyeForever

O filme é de tanto orgulho para os envolvidos que o próprio Kevin Feige disse que este é o filme mais importante que eles já fizeram.

Pantera Negra é um fenômeno cultural que quebrou recordes e mais recordes. Foram: no Twitter, o filme mais comentado da história; maior número de críticas positivas no Rotten Tomatos com 97% de aprovação; em bilheteria, passou toda arrecadação total de Liga da Justiça em apenas 4 dias; maior bilheteria americana da Marvel Stud10s desde a criação do MCU; terceira maior arrecadação americana da história, maior bilheteria americana da história para filme de super-heróis; pessoas e instituições incentivaram a levar crianças carentes ou de escolas a verem o filme, para entender aquele momento – recorde, mais de $300,000 arrecadados para este fim. (Fonte: https://www.boxofficemojo.com e https://www.buzzfeednews.com).

Veja a empolgação de crianças sobre a notícia para ver Pantera Negra:

O ator Chadwick Boseman que interpreta o personagem Pantera Negra, após o anúncio da Academia resumiu muito bem isso:

“Nós estamos fazendo história…”

Com toda essa energia na construção deste marco, a Academia do Oscar não perdeu o momento para indicar filmes com apelo popular, sem deixar de fora, obviamente, os grandes temas.

A festa sendo um sucesso ou não, tendo audiência esperada ou não, o filme “Pantera Negra” já é um vencedor, é a história vivida, registrada e contada. Eu tenho absoluta certeza de que, se Jack Kirby e Stan Lee, homens brancos, estivessem vivos, eles diriam também: Wakanda Forever!

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